O conceito\coisa de "café sem cafeína", ou "cerveja sem alcool" 

Zizek extrai de seus conceitos operam verdadeiras reviravoltas em algumas categorias clássicas, revelando assim, grande complexidade - complexidade que, por seu estilo midiático, é tornado espetáculo, exatamente o jogo por ele proposto de encontrar o Real do ideológico. O exemplo do café descafeinado, por exemplo, é mobilizado para dar conta da nova situação da ideologia nas sociedades pós-modernas, aonde as coisas perdem sua substancialidade, tornando-se mera imagem espectral. As coisas surgem desprovidas de peso, de materialidade, e isso coloca um problema para a idéia de que o ideológico é aquilo que oculta o real, cabendo à crítica desmitificar a máscara ideológica e descortinar a Verdade; nesse atual estado de coisas o real acaba por se tornar, ele próprio ideológico. Fazer a crítica da ideologia mostrando o real por detrás das aparências termina por justificar a própria ideologia que, cinicamente, se constitui a partir dessa apropriação do real.
O conceito de ideologia em Zizek e algumas implicações políticas e críticas.

O impressionante nos escritos de Slavoj Zizek é o quanto há neles de aparentemente simples que acaba se revelando extremamente complexo - o que, aliás, está em pleno acordo com sua noção de que o mais superficialmente ideológico é por vezes mais Real que a própria realidade, dando uma reviravolta no conceito clássico de ideologia, mas já estamos adiantando as coisas. Por isso ele consegue tratar, em um mesmo artigo, da noção de suplemento do Derrida, da dialética hegeliana, do conceito de luta de classes em Marx e em Althusser, das diferenças entre as privadas européias e do Schrek. É certo que existe algo de espetacular nesse movimento, de jornalismo popstar, mas mesmo esse movimento é coerente com uma reformulação do olhar sobre aquilo que antes se podia descartar como mera "ideologia", no sentido de uma falsidade que oculta a verdade das coisas. Movimento que não é invenção do crítico, mas que nele atinge proporções e desdobramentos muito interessantes, sendo uma delas, e não a menos importante, a possibilidade de ser um intelectual genial e, simultaneamente, um popstar.

Por exemplo o conceito\coisa de "café sem cafeína", ou "cerveja sem alcool" funciona de modo bem claro, entre outras coisas, como atualização da noção debordiana (isso soa muito pedante, transformar o sobrenome de alguém em adjetivo) de sociedade do espetáculo, do real como materialidade sem substância. Uma imagem de apreensão quase imediata e dotado de uma atualidade bem jornalística, que deverá -para se manter - ser substituída sucessivamente por outras. Um conceito descartável, que perde em força na medida em que perde atualidade. Mas por conta disso, é mais imediatamente compreendido e transmitido do que a noção de sociedade do espetáculo, que já não é nenhum conceito metafísico incompreensível como "absoluto" ou "imperativo categórico". E a descartabilidade não é incompatível com a idéia de que os conceitos materialistas devem impregnar-se de historicidade, sendo a necessidade de atualização uma necessidade intrínseca.

Nesse contexto surgem dilemas éticos complicados. Por exemplo, denunciar um caso de pedofilia e revelar suas motivações econômicas e sociais, mostrando o quanto esse gesto de negação sadomasoquista do outro tem relação direta com o modo que se estrutura a sociedade capitalista, pode estar absolutamente correto do ponto de vista de sua verdade histórica. A questão é que essa denuncia, essa historicização acaba cinicamente por servir como justificativa do ato - no limite, a questão não é a ação do pedófilo, mas o próprio Capital, que exige uma reformulação de todo sistema, etc. A historicização serve como justifica para relativizar o horror do gesto, que é históricamente determinado, evidentemente mas precisa, em nome de certa postura ética, ser tomado enquanto absoluto. Talvez a postura ética mais adequada nesse caso seja dar uma caráter trancendente ao ato, se recusando a historicizá-lo. Ou seja, agir ideologicamente, de maneira deliberada, talvez seja a única forma de se atingir a verdade. Creio que é por aqui que podemos entender a "defesa" que Zizek faz do fundamentalismo (o que não quer dizer que ele opte por ele).

Uma coisa parecida se dá com relação as cotas para negros e pobres na universidade pública. O principal argumento contrário é aquele que diz que a questão deve passar por uma reformulação total do ensino básico, e que as cotas seriam um mero paliativo. De fato pode ser isso mesmo, essa é a verdade - a coisa pode parar por aí, no paleativo - mas como a verdade é já em si, ideologia (a realidade simbolicamente constituída), a transformação da realidade passa por uma re-ficcionalização; a criação de uma ficção (medida paliativa) em que negros e pobres entrem na universidade sem a transformação das condições de base do país pode ser o meio (apesar disso não ser uma garantia) pelo qual essas condições se transformem. Ao menos, uma transformação mais rápida do que esperar por uma mudança espontânea das bases.

Portanto, a simplicidade da imagem\conceito de Zizek carrega consigo uma refuncionalização profunda, via Lacan, dos conceitos de realidade e ideologia - a realidade enquanto simbolização comporta intrinsecamente um movimento ideológico de ocultamento do Real, que retorna enquanto fantasmagoria. Retorno esse que pode assumir a forma de... ideologia.



Esse é o segundo movimento conceitual, ainda mais complicado que o primeiro. Na verdade, trata-se de seu desdobramento lógico: se a realidade é, em si mesma, ideológica, isso significa que o ideológico - tchan nan - é, em si mesmo, real. Com isso chegamos na cultura de massas, para alterar radicalmente a questão que se coloca para aqueles que procuram interpretá-la. Tomemos um caso de amor comum numa novela de Manoel Carlos ou qualquer outro, daqueles que superam a separação entre as classes, por exemplo. A crítica ideológica tradicional iria mostrar (o que é um passo necessário e fundamental, revelar o obsceno do ideológico) que, longe de superar a distância entre as classes, aquele tipo de amor, na medida em que é expressão do modo de construção da subjetividade burguesa, é a condição mesma da separação entre as classes, seu reverso inconfessável. Essa seria, pois, a verdade da ideologia, o lado obscuro da novela, sua mensagem subliminar.

O que Zizek propõe é que esse é apenas um primeiro movimento de aproximação da ideologia, pois, seu reverso - lido aqui enquanto verdade - é revelado também enquanto ideológico pela verdade expressa no amor da Rede Globo. A questão radical é compreender o que o amor rede Globo comporta em si de Real - não conseguir ver como o amor Global e a miséria dos pobres são complementares, mas como nesse Amor está inscrito as marcas daquilo que, em seu nome, não pode ser revelado. Qual o evento traumático inscrito no amor global e em seu reverso complementar, a miséria capitalista, e que não se resume a nenhum dos dois. A crítica da cultura de massa deixa, assim, de ter uma função de denúncia - pois a denúncia é hoje a base da ideologia (e aqui no Brasil, desde sempre a crítica de do caráter meramente ideológico da cultura dos e para os pobres tem servido para uma exclusão sistemática dessa cultura de um campo de reconhecimento simbólico) - para ter uma função de reconhecimento. Não a realidade por detrás das aparências, mas o Real da aparência, da realidade que se constitui ao redor de seu trauma fundamental, oculto\expresso nos intervalos do ideológico e da realidade.

"Estamos lidando aqui com a topologia paradoxal em que a superfície (a "mera ideologia") está diretamente vinculada com - ocupa o lugar de, representa - aquilo que é 'mais profundo que a própria profundeza', mais real que a própria realidade" (ZIZEK - "O espectro da ideologia").

O que um beijo hetero, branco, num casamento de uma novela das oito tem a nos dizer - não aquilo que ele oculta, os negros, os pobres, a falsidade ideológica do matrimônio, mas aquilo que ele mostra - que escandalizaria e forneceria os pressupostos para o esfacelamento de toda a sociedade burguesa? Esse é o verdadeiro desafio.

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